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"Sentidos de Urgência"

há 4 semanas

Desta vez não venho contar uma estória, mas sim duas. Ambas relatam acontecimentos simples e triviais mas que, pensando bem, são sintomáticos da “forma normal de fazer as coisas” nessas organizações. Sendo estórias verídicas, não lhe prometo nada de muito extraordinário ou palpitante, mas, se tiver a paciência de as ler até ao fim, perceberá porque as conto e também porque o faço em simultâneo.

 

- Bom dia, Doutor - disse Isaías dirigindo-se a Eugénio, o Diretor de Recursos Humanos da Publimol – Posso falar consigo?

- Claro Isaías, entre e sente-se - respondeu Eugénio – Em que posso ajudar?

- O Doutor conhece o meu problema e sabe que tenho tentado ultrapassá-lo, mas não tenho conseguido – disse Isaías, continuando – só que agora tenho uma companheira que me apoia e estamos a pensar mudar de ambiente. Talvez isso seja o princípio para eu conseguir deixar o vício.

- Parece uma boa iniciativa – respondeu Eugénio - mas vai exigir-lhe um grande esforço e vontade de mudar. Da parte da empresa, pode contar, como até agora, com o nosso apoio.

- É por isso que eu vim falar consigo - continuou Isaías - Gostava de sair da empresa e queria saber se posso receber a indemnização que a empresa pagou na ultima reestruturação.

- A reestruturação de que fala já foi há mais de um ano – argumentou Eugénio – mas, se é esse o seu interesse, posso pedir uma autorização especial.

 

Eugénio conhecia bem o Isaías. Ele estava ligado à Publimol há cerca de dez anos, mas nos últimos cinco tinha estado ausente a quase totalidade do tempo, devido a um problema de tóxico dependência. Há muito que o seu posto de trabalho estava ocupado por outra pessoa e já não contavam com ele. Por isso, Eugénio tinha uma noção clara que uma rescisão do seu contrato por mútuo acordo seria aceite. 

 

A Publimol era fruto da nacionalização de duas empresas privadas concorrentes. Foi um “casamento” complicado, mas, passados uma dezena de anos, o ambiente tinha normalizado. Pouco a pouco a Publimol foi ganhando algumas das características das empresas públicas. Gestão muito condicionada politicamente, número de empregados muito superior às empresas privadas, estruturas muito hierarquizadas, envelhecidas e com baixo nível de habilitações; salários baixos (embora com um bom nível de benefícios sociais); absentismo elevado e muita conflitualidade laboral.

 

- Bom dia Doutor Eugénio – cumprimentou Alcides – Posso falar consigo?

- Claro, Alcides – respondeu Eugénio – entre e sente-se. O que o traz por cá?

- Sabe, Doutor, trabalho há doze anos na Distrex e houve tempo que vinha sempre feliz trabalhar. Nos últimos meses é um suplício. Sinto que a empresa não gosta de mim, por isso, decidi vir propor-lhe uma rescisão do meu contrato por mútuo acordo, pagando-me a indemnização de lei. Acha que é possível?

- Posso tentar, Alcides – respondeu Eugénio – e quando pretendia sair?

- Logo que empresa permita. Por mim seria já hoje.

- Tudo bem, Alcides. Vou ver o que posso fazer. Volte ao seu porto de trabalho e eu chamo-o logo que tenha novidades.

 

A Distrex era uma empresa Portuguesa que possuía vários negócios na área da logística, uns mais rentáveis que outros, compensando os maus anos de uns com os bons anos de outros. Liderada pelo filho do fundador, a empresa tinha criado uma cultura marcada por uma forte orientação para os resultados e pelo sentido de urgência, assente num conjunto de técnicos e quadros já maduros, muito competentes e leais e que funcionavam como traves mestras.

 

Eugénio, Diretor de Recursos Humanos da Distrex sabia as razões da insatisfação do Alcides. Nos últimos anos existia um problema de furtos de bens nos veículos da empresa que só podiam ser cometidos por um grupo organizado de colaboradores internos. Havia suspeitas que Alcides era o chefe da “quadrilha”, mas nunca se tinha provado nada. Por isso, não tinha dúvidas que a Administração estaria aberta à pretensão do Alcides.

 

Eugénio preparou as contas finais e o respetivo acordo de rescisão e dirigiu-se ao Administrador que tinha o pelouro dos RH. A situação era conhecida e rapidamente concluíram que havia todo o interesse em aceitar a proposta de rescisão. Solicitaram de imediato à área financeira o respetivo cheque e duas horas depois, Eugénio e Alcides assinaram o acordo, que fez terminar a sua ligação à Distrex.

 

Retornando ao pedido do Isaías, Eugénio iniciou o processo que levaria à rescisão por mútuo acordo. Recolheu todos os elementos necessários e enviou ao Chefe do Isaías um pedido de parecer sobre a sua saída. O chefe do Isaías elaborou o seu parecer em que concordava com a saída sem necessidade de substituição e submeteu-o à aprovação do seu Diretor. Este elaborou um despacho concordante e enviou-o para os RH. Com base nesta concordância, Eugénio redigiu o seu parecer fundamentando a aceitação a título excecional da pretensão do colaborador e propôs ao seu Administrador que aprovasse o acordo de rescisão. O Administrador deu o seu parecer de concordância e enviou o assunto para ser incluído na agenda da reunião do Conselho de Administração, logo que houvesse disponibilidade.

 

Três meses depois da conversa com Isaías, Eugénio telefonou-lhe para vir assinar o acordo de rescisão. Estranhamente, ou não, a resposta que obteve foi:

 

- Acordo de rescisão? - questionou Isaías – Já nem me lembrava disso. Passaram três meses e a minha vida deu muitas voltas. Agora já não estou interessado!

 

 

José Bancaleiro

Managing Partner

Stanton Chase Portugal