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De subsídio a benefício

há 734 semanas

José viu da janela do seu gabinete o Sr. Joaquim Almeida atravessar com passo decidido o parque arrumadamente ocupado de carros que mediava entre o refeitório e a zona dos escritórios da "Secção de Pessoal", nome que lhe desagradava mas que ainda era usado pelos empregados mais antigos daquela Unidade Industrial.

Trabalhava na empresa há perto de cinco anos, dos quais três na Direcção de Recursos Humanos. Nunca tinha trabalhado noutra Empresa, mas pelas conversas que tinha com os antigos colegas da Universidade, parecia-lhe que a sua empresa tinha características únicas.

Era uma empresa pública criada a partir de duas empresas privadas concorrentes até às nacionalizações que se seguiram à Revolução de Abril de 1974. Os primeiros anos que se seguiram à fusão destas duas empresas não foram (como não são nunca) fáceis. Ambas tinham uma história de sucesso com mais de meio século e sempre tinham visto a outra como o "inimigo a abater". A imposição, por via mera e unicamente legal, que a partir daí seriam uma só empresa era fácil de dizer, mas muito difícil de aceitar e ainda mais de pôr em prática.

Passados cerca de dez anos de vida em comum, o ambiente tinha normalizado. A nova "EP" conseguira aumentar a eficácia das duas empresas privadas originais, mas começava a ganhar algumas das características das empresas com gestão pública. Apareceram as nomeações pela cor do cartão político, a influência sindical cresceu e tornou-se omnipresente, a estrutura foi engordando e as condições de trabalho e de vida dos seus "trabalhadores" foram-se tornando progressivamente mais confortáveis.

Viviam-se os anos seguintes a uma revolução que pôs fim a quarenta e oito anos de ditadura política e falta de liberdade sindical e, talvez por isso, a Direcção de Recursos Humanos, da qual José era um dos elementos mais activos, seguia uma forte orientação para a manutenção da paz social e para a criação de condições de conforto para os colaboradores da empresa.

José tinha-se evidenciado na criação de novos benefícios sociais e no melhoramento de alguns que vinham do passado das duas empresas. Tinha investido muita energia e tempo na criação duma rede privada de médicos especialistas para assistência aos empregados e reformados. Renegociara o seguro de vida ou invalidez permanente dando-lhe maior segurança e melhores condições. Conseguira que o conselho de gerência autorizasse tacitamente o acesso dos reformados aos refeitórios das duas fábricas a preços meramente simbólicos. Melhorara muito alguns subsídios, entre os quais o de funeral que era pago em caso de morte de empregado ou de reformado. Enfim, costumava dizer que qualquer dia o seu "middle name" seria "benefícios sociais".

Já tinha reparado no Sr. Almeida no refeitório. Habitualmente estava rodeado por vários antigos colegas de ambos os sexos, que pareciam beber as palavras que saiam da sua boca sorridente. Tinha sido um antigo chefe da oficina mecanica e há cerca de dez anos tinha negociado a sua passagem à reforma antecipada. Era um reformado activo, simpático e sempre com uma piada aos "lagartos" a bailar-lhe nos lábios. José sabia que depois da reforma ainda se tinha metido numa ou duas aventuras empresariais através da criação de oficinas de Fresagem, mas "não tinha dado com os sócios certos" e desistira. Nos últimos anos, a sua vida passava por apanhar o "19" para ir almoçar ao refeitório de Cabo Ruivo e depois o "50" para ir até ao Estádio da Luz ver os treinos do seu Benfica na companhia de outros "lampiões".

A conversa começou morna e, como não podia deixar de ser, versou o "penalty" roubado no último jogo com o Sporting. O Sr. Joaquim Almeida perecia ter alguma dificuldade em entrar no tema que o tinha levado a ir falar com o Chefe do Departamento de Recursos Humanos, mas lá entrou no assunto:

- Não sei se o Soutor sabe, mas eu fui um dos melhores fresadores que passou por esta casa. No meu tempo não era como agora, não havia peças de substituição para as máquinas ou então demoravam meses a chegar. A única solução era serem feitas na "mecânica". Muitas das máquinas ainda estão hoje a trabalhar com peças que eu fiz.

- Já sabia. O senhor tem ainda aí alguns dos seus aprendizes, disse José para o incentivar a continuar.

- Depois de eu ter saído daqui investi as minhas economias numa sociedade com outro fresador, mas as coisas não correram bem e fiquei sem dinheiro e sem ocupação. Agora passo o tempo na Luz a ver os treinos do meu Benfica. Mas já estou bocado farto, confidenciou o Almeida.

- Mas, o senhor já vai a caminho dos setenta, lembrou-lhe José. Não acha que já está em idade para descansar e gozar a sua reforma? Não dá para grandes luxos, mas com o que recebe da "Caixa" mais o complemento que recebe daqui da empresa, sempre dá para ir vivendo com algum conforto. Além de que, comendo diariamente aqui no nosso refeitório e não pagando as consultas médicas e os medicamentos, as suas despesas também diminuíram nos últimos tempos.

- É verdade Soutor - continuou o Almeida - a empresa dá-nos uma grande ajuda. Mas sabe, eu não sou um homem de sonhos, sou um homem de projectos. Não descanso enquanto não consigo transformar uma ideia em algo de concreto. E agora que a Empresa deu algum dinheirito ao Matias para ele se ir embora, eu estava a precisar dum empréstimo para poder entrar numa sociedade com ele. Não era muita coisa, talvez o adiantamento da minha reforma durante um ou dois anos?

- O Sr. Almeida sabe que isso não é possível, retorquiu o responsável pelos Recursos Humanos. A empresa tem regras muito restritas sobre adiantamentos e, de acordo com elas, não podemos conceder adiantamentos a reformados e muito menos para investimento em negócios. Para isso existem os bancos. Posso tentar apoiá-lo no pedido de empréstimo a um banco.

- Eu já sabia disso dos adiantamentos - respondeu o Sr. Almeida - mas recorri à empresa porque nunca gostei de meter com Bancos. Fico sempre com a sensação que ficamos a trabalhar para lhes pagar a eles.

- Pois é, mas temos de aprender a viver com eles - concluiu José - preparando-se para mudar de tema.

- Ó Soutor, mas eu tenho cá uma ideia que talvez possa resolver o problema. Como sabe, a empresa paga um subsídio de vinte e nove contos para o funeral de cada reformado. Ora quando eu morrer não preciso desse dinheiro para nada. A empresa bem podia pagar-me esse subsídio agora que é quando ele me está a fazer jeito. Agora é que ele era um verdadeiro benefício. Que acha?

Comentário de Fernanda Grilo:
O Sr Almeida tinha toda a razão.
O subsidio de funeral não o beneficiaria em nada pois alguém pagaria o seu funeral e o seu sonho de vida ainda estava bem presente e a precisar de uma pequena ajuda.
O José foi e é uma pessoa sensivel a estas questões humanas e por isso mais de 20 anos passados aqui está a recordação deste episódio.
Possivelmente o Sr Almeida já não está entre nós mas se no além tiver acesso á informação por certo que ficará satisfeito em saber que valeu apena a sua luta pela realizção de um sonho que o levou a usar todos os meios ao seu alcance.
Um abraço por me fazer recordar esta estória .

2006-07-21 09:13:27
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