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Estória: “Gasolina no fogo”

há 678 semanas

Foi através dum professor da sua universidade que Marcelo Cruz conseguiu um estágio de seis meses na COP - Construções & Obras Públicas. Fizeram-lhe duas entrevistas e enviaram-no para uma obra em Tomar, onde foi simpaticamente recebido pelo seu “tutor”, um Engenheiro Civil “á antiga” que ficou para sempre como o seu mestre.

Cedo se apercebeu que o que lhe tinham ensinado na Universidade de pouco lhe servia para as tarefas que tinha de desempenhar em obra. Mas, como gostava de aprender e sempre sentiu o apoio da equipa, a sua integração e aprendizagem deu –se de forma rápida e progressiva.

As questões técnicas nunca tiveram uma complexidade que pudessem tornar-se em verdadeiros problemas, até porque tinha uma boa preparação académica. Os problemas mais complicados de resolver eram, sem dúvida, os que se relacionavam com a gestão das equipas. Nesse campo, embora se julgasse com algum “jeito”, sentia uma enorme falta de preparação, que originava alguma insegurança nas situações mais difíceis. “Felizmente, tinha conseguido sempre alcançar os seus objectivos sem problemas de maior”.

Ao fim de nove anos na COP, era considerado um dos melhores Directores de Obra e um potencial Director de Produção se a Empresa continuasse a crescer nos próximos anos como tinha vindo a crescer nos anteriores. Gostava de trabalhar na COP. Tinha ali encontrado excelentes técnicos a todos os níveis. Pouco a pouco, tinha constituído uma equipa que confiava nele e que já lhe tinha dado provas de ser capaz de ultrapassar mesmo os desafios mais difíceis. Orgulhava-se do rigor da empresa em matéria de higiene e segurança e ambiente. Só o aborrecia a burocracia e a centralização das decisões na Sede da Empresa no Porto. “E se ao menos decidissem bem ou rápidamente. Mas nem uma coisa, nem outra!”.

Maio já ia a meio quando Marcelo iniciou uma nova obra perto de Albufeira, no Algarve. Tratava-se da maior obra de sempre da COP, com um grau de complexidade considerável e, para não estranhar, com um prazo de realização muito apertado. Precisava da melhor equipa e, mesmo com tudo a correr sobre rodas, não iria ser fácil cumprir aquele prazo.

Cerca de duas semanas depois da obra ter arrancado, o Encarregado Geral, Sr. Américo Fortes reuniu com ele e informou-o, com ar preocupado, que alguns membros da equipa lhe tinham dito que o valor das Ajudas de Custo que a Empresa estava a pagar não cobriam, por grande diferença, as despesas que tinham, principalmente no período de Verão. Ele mesmo tinha chegado ás mesmas conclusões e deu vários exemplos da diferença de preços entre Viseu, local onde quase todos tinham trabalhado nos últimos dois anos, e Albufeira. Uma frase corrente nas conversas da equipa era que “estavam a pagar para trabalhar”.

Marcelo ouviu com atenção, fez várias perguntas e no fim da conversa, convencido da justeza da situação, disse ao Sr. Américo que iria tratar do assunto com a Sede. A conversa deixara-o preocupado. Conhecia bem o estilo de liderança do Sr. Américo e sabia da influência que ele tinha sobre a equipa. Para ter vindo falar com ele era porque o problema era grave e não o tinha conseguido controlar.

Informou por telefone o seu chefe que o passou para a Dra Liliana, uma advogada com vários anos de ligação á empresa e que era a responsável pelos Recursos Humanos. A Dra Liliana pareceu não querer entender o problema, nem a gravidade das suas consequências. Apesar do seu esforço, respondeu repetidamente que “a empresa estava a cumprir rigorosamente a lei e o CCT” e que “nos termos da lei as Ajudas de Custo são iguais para todo o território nacional e durante todo o ano”.

Cerca de uma semana mais tarde, depois de ter sido abordado por dois encarregados sobre o mesmo tema, enviou uma mensagem por correio electrónico para a Dra Liliana, na qual explicava o que se estava a passar, demonstrava com exemplos concretos a justeza da contestação dos empregados e defendia que, no período entre Abril e Outubro se praticasse um valor de Ajudas de Custo mais elevados. “Se o bom senso não imperar, não sei o que fazer”.

Ao fim de três intermináveis semanas, veio a resposta. A Dra Liliana mostrava a estranheza pela situação, porque o valor das Ajudas de Custo era o mesmo que tinha sido praticado no início do ano em Viseu, sem qualquer reclamação e reafirmava os argumentos de “rigoroso cumprimento da lei e do CCT”.

Marcelo sentiu-se impotente. Convocou o grupo de encarregados, que tinham sido avisados das suas diligências para resolver o assunto, e informou-os sobre a resposta que tinha recebido da Sede. A preocupação transpareceu na cara de todos. Explicaram que, apesar do que se estava a passar, as equipas estavam trabalhar bem, porque tinham confiança que o assunto ia ser resolvido. Mas, todos tinham noção que quando a decisão da empresa lhes fosse comunicada, muitos iriam regressar ás suas terras onde facilmente encontrariam colocação em situação mais vantajosa.

Os problemas começaram na quinta-feira. Três condutores de máquinas “teimaram” que no sábado seguinte não trabalhariam (o que era essencial para cumprir os prazos) porque queriam ir a casa. Colocado o problema à Direcção de Recursos Humanos, a resposta foi rápida e inapelável. “Nos termos da lei, querer ir a casa não é uma razão que justifique a recusa de fazer horas extraordinárias, pelo que, em caso de insistência, os empregados ficarão sujeitos a um processo disciplinar”.

E foi o que aconteceu. Os empregados “foram a casa” e a empresa cumpriu a lei. Foram instaurados os processos disciplinares que, como seria de esperar, nem chegaram ao fim porque os três empregados encontraram outras colocações antes.

Os outros empregados, que já estavam insatisfeitos com a decisão da empresa sobre as Ajudas de Custo, ficaram muito revoltados com o que se estava a passar com os três colegas e começaram a recusar-se com frequência a trabalhar aos Sábados. A maioria deles, em especial os mais qualificados, foram, pouco a pouco, abandonando a COP.

O prazo de conclusão da obra foi resvalando progressivamente, e, consequentemente, acumulando prejuízos que, no fim da obra, puseram em causa a viabilidade financeira da empresa. Poucos meses depois destes acontecimentos, Marcelo, desiludido com a COP, pediu que encontrassem um substituto porque queria abandonar a empresa, o que veio a acontecer poucas semanas depois.

Liliana foi chamada ao Presidente da COP que a convidou a sair, tendo respondido com ar genuinamente incrédulo: “Despedida, eu? Porquê? Limitei-me a cumprir a lei!

Hoje em dia é cada vez mais frequente e essencial ajustar-se ao meio envolvente e a todas as situações que o condicionam onde o rigor e a complexidade de cada situação devem ser factores a minimizar quando colocam em risco a viabilidade estabilidade e solvabilidade de qualquer organização ou empresa seja ela pública ou privada.
A lei é igual para todos mas com moderação e flexibilidade pode ser contornada de acordo com os propósitos legais e ajustadas à situação actual da realidade do mundo laboral.

2007-03-27 10:54:38
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