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Racionalização

há 205 semanas

- Bom dia Sr. Engenheiro Conceição, saudou Luciano, entrando no gabinete desarrumado de Adriano Conceição, já tem a aprovação para eu poder ir levantar o material para a obra da Expedição?

- Bom dia Luciano, respondeu Adriano, Já tenho aqui a requisição aprovada, mas tenho de te explicar uns detalhes.

Ambos trabalhavam há vários anos no Departamento de Manutenção daquela Unidade fabril situada nos arredores de Lisboa. Embora tivessem “feitios” muito diferentes, mantinham uma relação entendimento e respeito mutuo, própria de quem compreende que as boas equipas se constroem a partir de personalidades e competências diversas. Adriano, mais conhecido por Eng.º Conceição, era um jovem Engenheiro Civil responsável pelo Departamento. Luciano era pintor, mas fazia também e muitos outros serviços.

- Já ouviste falar em racionalização? Perguntou Adriano.

Perante a resposta negativa, Adriano explicou que esta era uma das principais palavras usada pela equipa de administração recentemente nomeada e que tinha um estilo de gestão muito diferente das anteriores. Um dos novos administradores, em especial, parecia apostado em controlar e moralizar todos os gastos e tinha centralizado em si a autorização de todas as compras e até a aprovação das requisições internas de materiais e ferramentas ao armazém central. Isso fazia com que todas as aprovações, mesmo as mais pequenas, fossem tomadas na Sede, o que não só as atrasava, como fazia com que muitas não fossem aprovadas ou, quando o eram, viessem cortadas.

- Já percebi. Racionalizar é o mesmo que racionar, afirmou Luciano com um sorriso malandro.

- Não é bem isso, respondeu Adriano também sorrindo, embora na prática vá dar ao mesmo.

- Mas chefe, talvez esse novo administrador até tenha alguma razão para querer controlar as coisas. O desperdício nesta casa às vezes é de bradar aos céus, acrescentou Luciano, que era conhecido por ser um dos maiores “refilões” da empresa. Olhe para estas obras que estão a fazer na tipografia. A empresa está a gastar “um balúrdio” quando toda a gente sabe que se está a negociar a passagem daquela secção para uma empresa especializada naquele tipo de indústria.

- Tens razão, embora por vezes nós não tenhamos toda a informação para percebermos a razão de certas decisões. Mas que algumas decisões são estranhas, lá isso são, concluiu Adriano.

- Estranhas? Algumas são autênticos crimes! Retorquiu Luciano enfaticamente. Lembra-se do investimento que foi feito nas obras da nova Sede em Lisboa? Milhares de contos, para menos de dois anos depois decidirem mudar a Sede para junto da Fábrica. Depois vêm dizer que não há dinheiro para aumentar uns escudos o subsídio de refeição.

- É verdade, Luciano, Às vezes as empresas poupam na farinha e gastam no farelo. Poupam onde devem gastar e gastam onde devem poupar.

- Então e a requisição? Perguntou Luciano. Tenho o Miguel à espera para começarmos a pintar. Se tudo correr bem acabamos antes do fim da semana.

- Ah, é verdade. Aqui está, disse Adriano, entregando o documento a Luciano. Como podes ver estão aí uns cortes.

Luciano olhou para o documento e abriu os olhos de espanto.

- O quê! Em vez de cinquenta litros de tinta, trinta. Em vez de 4 rolos de fita só dois.

- Pois é, Luciano, vais ter de poupar na tinta. Chama-se a isso racionalização.

- Oh Eng.º e o que é isto, disse Luciano, apontando de novo para o papel. Em vez de dois rolos de pintar apenas um. Mas como é que isto pode ser, nós somos dois pintores.

- Pois é! Exclamou Adriano, parecendo incomodado com a situação.

- Tudo bem, nós racionalizamos. Pintamos à vez. Enquanto um pinta o outro descansa!

 

Sintra, 25 de Maios de 2008

José Bancaleiro

Comentário de rita lança:
Por vezes a racionalização é cega...
Ou então é uma forma diferente de ver as coisas: enquanto um pinta o outro coloca a fita ou vai adiantando outro serviço também necessário...

2015-08-11 15:45:13
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