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Fator C

há 196 semanas

“Neste país só se encontra emprego com cunhas!”, afirmou há poucos dias um “job seeker” numa das minhas habituais “conversas do meio dia à uma”. É, aliás, uma é uma frase que ouvi recorrentemente ao longo dos anos e que, em regra, é dita de forma convicta e desesperada, por quem está com dificuldade em encontrar uma nova colocação.

No caso deste jovem desempregado (licenciado e ex-professor de matemática) dois tipos de razões parecem contribuir maioritariamente para o seu “desânimo”. Razões extrínsecas, relacionadas com o seu mercado de trabalho. A redução do número de alunos e o excesso de professores torna o mercado inacessível para muitos destes profissionais. Razões intrínsecas, habitualmente ligadas ao auto investimento que no passado cada um de nós fez nas suas competências técnicas, nas comportamentais e na construção da rede de contactos.

A situação torna-se ainda mais intensa e dramática, quando (como era este caso) a pessoa não sabe o que pode e deve fazer para ultrapassar o seu problema e lhe acrescenta uma postura de “locus de controlo externo”, do tipo “a culpa é da crise, do governo, do mercado, dos que têm cunhas, etc”. Esta conjugação de fatores origina uma visão do mundo profundamente negativa, que, como sabemos, se transfere para os outros e reduz ainda mais as possibilidades de encontrar um novo emprego. Felizmente, no caso deste jovem a solução não era difícil e estava bem perto. Foi só ajudá-lo a reorientar as suas opções profissionais.

Cada um sabe de si! Por muito que custe aos guardiões habituais do politicamente correto nas redes sociais (“frusbecis”), eu trabalhei durante mais de 25 anos como gestor de recursos humanos de empresas de vários tipos e vários setores e contam-se pelos dedos duma mão as situações em que soube ou assisti a uma admissão determinada pelo fator cunha.  

Recebi (e continuo a receber na minha atual função) muitas recomendações de pessoas, que sempre analisei e ponderei com isenção e exclusivamente à luz do interesse do meu cliente ou da minha entidade empregadora. O propósito principal da minha atual função é fornecer aos meus clientes o talento mais adequado a alcançar os seus objetivos de negócio. Por isso, agradeço a qualquer pessoa que me recomende outras pessoas que julgue talentosas. Mas daí a alguém julgar que a sua sugestão é determinante de um benefício injustificado, vai uma distância enorme.

Recomendar é o ato de aconselhar algo a alguém. É um ato transparente, bem intencionado e orientado pelo interesse doutrem. Meter uma cunha é pedir a alguém que beneficie injustificadamente outrem. É um ato dissimulado, com um objetivo questionável, determinado por um interesse próprio, que obriga a um conluio entre duas partes e que se traduz num prejuízo (maior ou menor) para alguém.

Quem, como eu, trabalha no mundo das transições profissionais, sabe que a grande maioria de novas oportunidades surgem através da rede de contactos (networking) e que, dentro deste canal, as recomendações de antigos colegas são as mais numerosas, as mais adequadas e as que geram maiores probabilidades de sucesso.

 

É por isso que valorizar e aprender a gerir a forma como saímos duma empresa é um dos fatores que mais poderão contribuir para uma nova colocação. Ser um profissional ético, competente e dedicado até ao último dia é a chave para ser recomendado para uma nova oportunidade. Aproveitar os últimos dias para prejudicar, dar informações à concorrência ou levar a base de dados de clientes (como aconteceu há pouco connosco) é “proficídio” (suicídio profissional).  

O segredo não está no fator C (Cunha), está no Fator R (Recomendação)!

Sintra, 10 de Agosto de 2015

José Bancaleiro

Managing Partner

Stanton Chase International – Your Leadership Partner

Comentário de Teresa Monteiro:
Mais um excelente artigo. Obrigada.

2015-09-12 11:48:20
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